Um ano promissor vira pesadelo

Thalita Ezequiel

Quando 2017 começou, eu não esperava que fosse um ano de títulos ou de disputa pelos primeiros lugares. Ainda assim, minhas expectativas eram muito altas. A contratação de Roger, com suas promessas de treinos modernos e um esquema de jogo mais equilibrado, seria a base para a evolução desse time que tanto sofreu defensivamente nos anos anteriores, apesar da impressionante eficiência ofensiva. O meu pensamento era o de que esse seria um ano de preparo para colher os frutos em 2018, com um elenco estruturado, já entendendo a nova proposta do treinador, e com contratações pontuais para reduzir a idade média do elenco.

As contratações foram incógnitas. Por mais que o presidente diga o contrário, o único incontestável na época de sua chegada no início do ano foi Elias. Roger, que teoricamente participou da montagem do elenco, usou como muleta a deficiência do mesmo para justificar as dificuldades encontradas para a evolução durante o primeiro semestre. A cada semana que passava, víamos um time cada vez mais dependente de cruzamentos infrutíferos na área e a escassez de boas partidas que mostrassem alguma sombra de melhora. 

A decisão pela demissão do treinador certamente teve a contribuição da torcida. Ainda que acredite que o presidente precisa bancar suas escolhas, sei que a pressão é grande. Mas o maior questionamento que fiz à diretoria na época era relacionado à falta de boas opções disponíveis no mercado. Nepomuceno tinha acabado de fazer uma aposta, contratando um técnico que só havia feito um trabalho anteriormente. Certamente, não era hora de apostar de novo. 

No entanto, a aposta veio novamente. Tal qual num cassino, o presidente achou que podia ficar gastando fichas e que elas não teriam fim. Gastou a ficha da Libertadores e da Copa do Brasil, ao demitir Roger no meio do mata-mata. Gastou a ficha do G6 no Brasileirão ao colocar, mais uma vez, alguém sem experiência no cargo. E como um apostador viciado, afirmou, derrota após derrota, que a próxima vitória era obrigação. 

Micale, que veio credenciado pela conquista do inédito ouro olímpico com a seleção brasileira, não tinha feito sequer um trabalho bem sucedido no profissional. E até sua conquista era coroada de questionamentos, já que a seleção campeã fez péssimos jogos durante a competição, contra equipes limitadas. Pelo que dizem nos bastidores, sua contratação contava com o aval de André Figueiredo, com quem trabalhou na base, e seria somente um tampão até o final do ano, quando Cuca assumiria o comando. 

Entretanto, sua empreitada durou apenas dois meses. Se podemos destacar alguns méritos, estes foram a diminuição dos cruzamentos e a tentativa de construção de jogadas pelo chão, além de começar a jogar com dois volantes, dando mais criatividade para o time. Por outro lado, mostrou deficiências que foram decisivas para sua queda: a fragilidade da defesa e as substituições incompreensíveis durante os jogos. 

Ontem, contra o Vitória, isso ficou muito evidente. Após entrar no jogo com a velocidade de uma tartaruga depois de almoçar uma feijoada, o time tomou um gol de pelada logo aos dois minutos do primeiro tempo. Apesar da ineficiência ofensiva dos seus três jogadores de criação, Cazares, Valdívia e Luan, conseguiu o empate em linda assistência de Fred. E com esse resultado na primeira metade do segundo tempo, como quem joga um mata-mata e depende de uma vitória para a sobrevivência, Micale escancarou o time. 

Tirou Adílson, seu melhor volante, para a entrada de Otero, que jogou muito bem. Optou por deixar Yago, perdido na marcação e no apoio, jogando de ponta ao final do jogo. Tirou Fred, que fazia um dos seus melhores jogos nos últimos tempos, para colocar Rafael Moura, que tem exatamente as mesmas características, porém com menos técnica. E para coroar suas trapalhadas, colocou Marlone, que não foi aproveitado em nenhum dos últimos jogos, para atuar como volante! E foi nessa bagunça que o Vitória conseguiu fazer mais dois gols e fechou o caixão de Rogério Micale que, no final das contas, não calou ninguém. 

E aqui vamos nós, para o terceiro técnico do ano. Se o início do ano representava o sonho de uma temporada bem planejada, o final mostra o pesadelo estrelado por uma diretoria despreparada. E, a cada vez que essa diretoria tem que tomar uma decisão em relação ao futebol, o torcedor fica de cabelo em pé. Não sem motivos, considerando que já ouvimos por aí que Oswaldo de Oliveira seria o mais cogitado para assumir esse pepino. Eu sou da seguinte opinião: se for para trazer treinadores inexperientes ou contestados, melhor ficar com quem já está aí, que pelo menos conhece o elenco e não vai querer implantar uma filosofia de trabalho completamente diferente nessa altura do campeonato. Vamos ver o que o presidente apronta dessa vez. 

 

Foto: site http://www.atletico.com.br