Um papo com Eduardo Freeland, diretor da base do Cruzeiro

Bárbara Ezequiel

Historicamente, o futebol brasileiro é conhecido no mundo todo pela revelação de grandes talentos, como Pelé, Romário e Ronaldo, que tinham características que sempre despertaram fascínio nos amantes do esporte, como visão de jogo e técnica refinada.

Justamente por estarmos habituados a formar atletas de alto nível e por observar que hoje há maior dificuldade de mantê-los no futebol brasileiro, há uma exigência e preocupação dos torcedores com a formação de jogadores pelos clubes.

Para explicar um pouco sobre o processo de trabalho realizado na Toca I, o convidado do Midia Day do último 26 de agosto foi Eduardo Freeland, formado em educação física pela UFRJ, e que durante a graduação integrou comissões técnicas em clubes menores do Rio de Janeiro, como Madureira e América.

Trabalhou ainda como treinador no Botafogo, onde posteriormente foi promovido à gerência técnica da base por 5 anos, e coordenação por 2 anos e meio. Assumiu em fevereiro de 2017 a direção das categorias de base do Cruzeiro.

A mudança no perfil dos jogadores revelados atualmente no Brasil e a relação disso com a perda dos campos de várzea foi o primeiro tema trazido para a discussão. Sobre isso, Freeland respondeu acreditar que essa mudança cultural impacta negativamente na descoberta de talentos, mas destaca que isso é passível de ser contornado.

Mas para ele, o que mais prejudica a formação de novos atletas é a disparidade entre a evolução do futebol mundial e o progresso social no Brasil. A nova geração apresenta dificuldades de desenvolvimento cognitivo, foco e concentração, o que reflete no desempenho no esporte.

Nesse sentido, o Cruzeiro tem uma preocupação em acompanhar o atleta de maneira completa, avaliando não somente desempenho em campo, mas também aspectos sociais e familiares de sua vida.

Explica ainda que foi lançado em agosto deste ano um documento orientador de conteúdos que norteia qual o caminho a ser percorrido pelo jovem desde o sub14 até o sub20.

Ao longo deste processo, há avaliações trimestrais de cada indivíduo para identificar suas potencialidades e minimizar dificuldades, inclusive extracampo.

O clube conta também com o projeto Grupo Diamante Azul (GDA), criado em 2015, que tem o foco de desenvolver as especificidades técnicas e refiná-las, independentemente da posição em que o jovem atua, com o objetivo de capacitar o jogador de maneira integral.

Sobre a transição da base para o profissional, explicou que há uma relação de proximidade entre as divisões, o que facilita o processo de mudança para os jogadores.

Esclarece ainda que há um projeto em andamento, para que os processos realizados sejam uniformes em todas as categorias, desde a fisiologia e fisioterapia, até preparação física e departamento médico, de forma adequada às faixas etárias.

Uma ação que já acontece e tem rendido bons resultados, é trazer os atletas do sub20 para treinar na Toca II, inclusive juntamente com o time profissional. O objetivo dessas ações é estreitar ainda mais a relação entre as categorias, para que a transição aconteça com mais naturalidade.

Ainda sobre o processo de trabalho, explica que há uma planilha de acompanhamento dos jogadores, onde consta todo histórico dos mesmos dentro do clube.

Em reunião trimestral com toda comissão e coordenação técnica, é discutida a vida de cada atleta, dentro e fora do Cruzeiro, para avaliar individualmente se as potencialidades e características essenciais para seus jogadores estão sendo preenchidas. Nesta planilha constam 7 competências de perfil geral e 4 a 5 de  perfil específico para cada posição, este mais técnico.

Quando identificado que o jovem não apresenta bom desempenho, é acionada equipe multidisciplinar para auxiliá-lo em sua recuperação, inclusive com intervenções junto à família.

O objetivo dessa reunião é selecionar quais jogadores se enquadram nos padrões exigidos pelo clube, para mantê-los. Dessa forma, situações como perda de talentos para outros times são minimizadas.

Quando questionado sobre qual o objetivo da base entre formar jogadores e ganhar títulos, Freeland explica que o objetivo das categorias de base é formar atletas que sigam o estilo histórico de jogo do Cruzeiro.

Mas por se tratar de um clube de futebol de alto rendimento, em toda competição que participar, a equipe deve buscar vencer. E aproveitar as situações de derrota para amadurecimento dos atletas, bem como análise crítica do processo de trabalho e consequentemente seu aprimoramento.

Ressalta ainda que a participação em competições, jogos grandes, televisionados, é importante para o desenvolvimento e qualificação desses jogadores.

A realização desse trabalho tem rendidos bons frutos, a equipe sub-20 está classificada para a semifinal do Campeonato Brasileiro, invicta e em primeiro lugar no seu grupo.

Já no profissional, em 2017 temos jogadores que vieram da base recebendo destaque no time titular, com a oportunidade de escreverem seu nome na história do Cruzeiro, na final da Copa do Brasil. Murilo, Alisson e Raniel têm honrado a camisa nesta temporada e é muito gratificante perceber que a formação de jogadores é valorizada pelo clube.

O desejo que fica é de que mais jogadores tenham a chance de jogar entre os profissionais e também brilharem com a camisa do Cruzeiro.

Foto retirada de cruzeiro.com.br