Cria da base celeste, o ainda jovem Lucas Silva tem muita história para contar

Por Bárbara Ezequiel

Lucas Silva, 24 anos, é volante e atuou em 116 partidas, pelo Cruzeiro, 23 neste ano, com quatro gols marcados. O Mídia Day do último sábado contou com a presença do atleta, que falou sobre o começo de sua carreira, o bicampeonato, a transferência para o Real Madrid e o retorno ao futebol brasileiro em 2017. Formado nas categorias de base do Cruzeiro, foi promovido ao profissional em 2012. Estreou em 18 de julho daquele ano, contra a Portuguesa, pelo Campeonato Brasileiro.

Sobre a base, Lucas comentou que lembra sempre com muito carinho daquela época de sua vida e que tem muitos amigos que trabalham na Toca I, visitando-os sempre que pode. Ressaltou, também, as melhorias que foram feitas no centro de treinamento nos últimos anos, desde a estrutura da escola, dos campos até a academia e os dormitórios. Lembrou que ficava contente quando era visitado por jogadores profissionais e por isso faz questão de estar sempre presente.

Em 26/08/2012, ele jogou seu primeiro clássico contra o Atlético-MG, jogo que terminou empatado em 2 a 2 e ficou marcado para o atleta, pois desencadeou em sua saída do time titular, após gol de Ronaldinho Gaúcho. Sobre essa partida, Lucas comenta que por tratar-se de seu primeiro clássico, e por estar há pouco tempo no profissional, optou por não interromper a jogada que originou o gol adversário, com falta. Ele já havia sido advertido com cartão amarelo, temia ser expulso e acreditou que a jogada poderia ser interrompida em seguida. Após essa partida, o atleta foi sacado da equipe titular, algo que ele diz ter entendido tratar-se de circunstâncias do futebol, o que o motivou a continuar trabalhando para corresponder logo que tivesse uma nova oportunidade.

Lucas Silva nos tempos de base no Cruzeiro
Foto: Denilton Dias/VIPCCOM

Em 2013, com a chegada de Marcelo Oliveira, Lucas voltou a ganhar novas chances e se tornou titular. Seu primeiro gol (e segundo) como profissional aconteceu em 1º de setembro, contra o Vasco, pelo Brasileiro, jogo que terminou em 5 a 3 e garantiu a manutenção da liderança com 3 pontos de vantagem sobre o Grêmio, então segundo colocado.

Sobre aquela partida, Lucas conta que foi um jogo-chave em sua carreira, primeiro por tratar-se de uma vitória importante para a campanha cruzeirense; segundo, por ter a chance de jogar contra Juninho Pernambucano, um de seus ídolos; e, terceiro, por ter sido contra um adversário forte naquele momento da competição. O camisa 16 também considera o segundo gol como o mais bonito de sua carreira, mas o primeiro como o mais importante.

Ao final daquele ano, o Cruzeiro conquistaria o título de campeão brasileiro com uma campanha brilhante, em que derrotou todos os adversários em pelo menos uma das partidas que disputou. 2014 seguiu a tônica do ano anterior, com um desempenho inquestionável, que teve como consequência o bicampeonato brasileiro. Nenhum torcedor será capaz de esquecer esse período incontestável da história cruzeirense.

Lucas Silva relembrou que aquele grupo era unido, dentro e fora de campo. O ambiente era leve, descontraído e de muita confiança, até como consequência dos bons resultados. Sobre as conquistas dos títulos, ele acredita que a receita para um time campeão seja bom planejamento, com a montagem de um elenco forte, já que o Brasileiro é um campeonato longo, que premia a regularidade.

Em janeiro de 2015, o jogador foi vendido ao Real Madrid, em uma transação de cerca de 15 milhões de euros. O atleta contou que a escolha pelo time espanhol foi inteiramente sua, mas que refletiu muito antes de tomar essa decisão. Sobre a adaptação em Madri, ressaltou a importância de jogadores brasileiros que o ajudaram a conhecer o clube, o estilo do futebol e na compreensão do idioma, citando especialmente Marcelo, de quem se aproximou mais. Sobre a interação entre os jogadores, conta que o entrosamento era muito bom, apesar da relação fora de campo ser menor, comparada a elencos de clubes brasileiros.

Em relação ao seu amadurecimento profissional, Lucas enfatizou que o período em que passou na Europa foi determinante para aprimorar sua aplicação tática. Lá, segundo ele, os jogadores aprendem a respeitar esse aspecto do jogo desde muito novos. Já no Brasil, há uma preocupação menor com esse conceito em detrimento da qualidade técnica. Mas ele disse considerar essa diferença como cultural e vê as duas vertentes como positivas. Sobre os treinamentos, contou que no futebol europeu eles são mais curtos, porém de maior intensidade e que há mais trabalho com bola.

Em 2016, após empréstimo ao Olympique de Marseille, Lucas Silva seria transferido ao Sporting de Portugal. Porém, durante os exames médicos, foi identificada uma arritmia cardíaca que o afastou dos gramados por oito meses, para que ele fosse submetido a uma avaliação mais minuciosa. Sobre este período tenso, o jogador contou que, ao receber a notícia, ficou assustado em um primeiro momento, mas não se desesperou, pois todos os exames aos quais tinha sido submetido, tanto no Cruzeiro, quanto no Real Madrid, nunca apresentaram qualquer alteração.

O jogador aproveitou para salientar que, após diversos exames, foi descartada qualquer alteração cardíaca e que só pensaria em parar de jogar caso houvesse algum diagnóstico que o impedisse de seguir sua carreira. Lucas classificou o futebol como sua maior felicidade e que, por isso, faria qualquer esforço que fosse necessário para continuar jogando.

A volta ao Brasil aconteceu no início deste ano. Diferentemente da sua passagem anterior, o Cruzeiro vinha de duas temporadas ruins e lutou contra o rebaixamento. Havia uma pressão da torcida para que o desempenho da equipe fosse superior, inclusive com disputa por títulos, e essa diferença no ambiente foi notada pelo jogador.

Lucas entende que nesta passagem pelo clube sua responsabilidade é maior, que respeita a cobrança da torcida, acostumada a ganhar títulos, e reforça que este é seu objetivo para o clube. Sobre a titularidade, o atleta entende que a decisão é do treinador, mas está feliz pelas oportunidades que vem recebendo e com a chance de poder atuar nos últimos jogos, algo que, para ele, é de extrema importância para ganhar ritmo e aprimorar seu desempenho. O jogador fez questão de frisar que nesta temporada está mais maduro, com melhor leitura de jogo e maior força física, fatos que podem contribuir para atuações mais consistentes.

Lucas tem revivido parceria com Henrique, que fez sucesso no ano do bicampeonato brasileiro, em 2014
Foto: Washington Alves / Light Press

Em relação à semifinal da Copa do Brasil, contra o Grêmio, disputa que se inicia nesta quarta-feira, 16 de agosto, Lucas afirmou que o elenco tem condições de brigar pelo título, por ter jogadores experientes, algo que considera fundamental para disputas de mata-mata. Ele entende que serão jogos difíceis, mas os jogadores estão confiantes e lutarão pela classificação.

O jogador aproveitou o bate-papo para convocar o torcedor para apoiar o time nesse confronto, não só no Mineirão, mas também em Porto Alegre, e relembrou que em 2013 e 2014 a presença e o apoio do torcedor foram fundamentais, não só no estádio lotado, mas também na recepção ao ônibus, ainda na entrada do Mineirão.

Quando vemos um jogador formado na nossa base, com uma história significativa no clube, o sentimento que fica é de orgulho. As categorias formadoras precisam ser mais valorizadas. Em alguns clubes brasileiros esse processo já acontece, como no Santos.

Mas, aqui no Cruzeiro, ainda estamos engatinhando nesse sentido, algo que é histórico. Parte dessa culpa remete a nós, torcedores. Um jogador que foi descoberto e formado na Toca I, ao subir para a equipe profissional, deve ter a tranquilidade de contar com apoio e paciência da torcida. Pressa e impaciência em nada contribuem para a evolução de um atleta ainda em formação.

Além de Lucas Silva, outro atleta que tem rendido bons frutos ao time profissional, por exemplo, é o atacante Alisson, que está vivendo o melhor momento de sua carreira. Ele é um dos principais jogadores do elenco atual, pelo futebol apresentado, mas ainda enfrenta fortes críticas de parte da torcida. E em muitos momentos precisou lidar com uma impaciência exagerada. Sejamos mais cuidadosos com os atletas da nossa base, para que quando tenham uma oportunidade no profissional, possam dar retorno ao clube de todo o investimento feito durante sua formação.

 TRECHOS DE DESTAQUE DO BATE-PAPO

“A gente está muito confiante para esses dois jogos contra o Grêmio. Claro que vão ser jogos difíceis, mas a gente vai com tudo e vemos uma grande possibilidade de sermos campeões da Copa do Brasil”

“Espero contar com todos os cruzeirenses, não só no Mineirão, no jogo da volta, mas também no primeiro jogo. Esperamos fazer um bom resultado e aí sim, no jogo da volta, com o Mineirão lotado, como 2013 e 2014, que foi lindo de ver, principalmente na recepção, na parte de fora do Mineirão, que já contagiava muito e fazia diferença dentro de campo”