Planejamento X Imediatismo

Bárbara Ezequiel

Todo início de temporada, imagino que a diretoria de um clube organizado se reúna e trace os objetivos que tem para aquele ano. Quais metas pretende alcançar, quais contratações serão necessárias, quais serão as estratégias utilizadas para conciliar o calendário mais do que extenso. Se o treinador do ano anterior for mantido, um problema a menos, pois este estará envolvido em todo processo de montagem do elenco. Conhecendo ele as peças que tem, apontará os jogadores que estarão em seus planos, quais deverão ser dispensados e quais contratações são necessárias. Eu nunca trabalhei em clube de futebol, não sei se esse processo realmente existe. Mas deveria ser assim.

Sobre a contratação de um treinador e também de sua comissão técnica, há uma série de questões contratuais que são ponderadas. Os dois lados tentam se resguardar da melhor maneira possível, afinal, todos sabemos, no futebol uma verdade não dura 24 horas e ao menor sinal de tempestade, a primeira cabeça a rolar, é justamente do comandante da equipe. Técnicos renomados tendem a impor multas rescisórias altas, e em muitos casos, o clube é obrigado a continuar pagando o salário gordo desse profissional até que ele seja novamente contratado.

Pois bem, dito isso, considero essa mania de demitir treinadores, que já é cultural no Brasil, bastante nociva, primeiro para todo o planejamento que foi construído e segundo, para a saúde financeira de um clube.

Vejamos o caso Abila, por exemplo: jogador foi contratado para ser titular, para resolver o problema do ataque e da péssima fase que o time estava passando em 2016. Mas até então o treinador era Paulo Bento, que logo caiu. Veio Mano Menezes, que não parece gostar muito desse estilo de jogador, como todos pudemos notar nesse ano. Consequência: Abila deixou de ser primeira opção.  Jogador que se transformaria em uma dívida altíssima ao final do ano, que o clube não tinha condição de pagar, veio como solução e não era nem utilizado.

Eu sou uma defensora do planejamento e da continuidade de trabalho. Considero a maioria das demissões, no Brasil, extremamente prematuras e isso empobrece o futebol. Pensem em quantas trocas de treinadores já aconteceram nesse ano. Alguns clubes, como o Atlético Paranaense já alteraram seus comandos mais de uma vez, nessa temporada, estamos em agosto.  Que tipo de trabalho um profissional que chega ao final do turno do Brasileirão poderá realizar? Vai somente apagar um incêndio, se tiver sorte. Se não, terminará de enterrar um time que já se encontra em má situação. Pense no tempo que ele levará para conhecer seus jogadores, para entender a filosofia de trabalho do clube, para imprimir sua ideia de jogo. Um ano inteiro jogado no lixo, porque convenhamos, se der certo, os frutos serão colhidos somente no ano seguinte.

Ah, mas é melhor trocar o técnico do que ser rebaixado, alguns dirão. Sim, é claro que é. Mas a maioria das demissões acontecem bem antes disso. São times que não obtém resultado esperado, mas que não estão enfrentando risco real de rebaixamento. Já vimos treinador ser demitido com o time em fase final de campeonato mata-mata. São esses imediatismos, essa pressa, que torcedores e dirigentes têm que torna o futebol brasileiro tão desorganizado. Esse tipo de comportamento passional é compreensível entre torcedores. Não pode ser aceitável entre dirigentes.

O que posso dizer, hoje, é que torço muito para que o trabalho de Mano Menezes siga evoluindo e que a gente o mantenha no comando do Cruzeiro, até o fim do ano. Porque a última coisa que o cruzeirense precisa, após os dois últimos anos medíocres que tivemos, é de mais uma temporada jogada no lixo.

Foto: Beto Jr/Light Press/ Cruzeiro